Maldito carnaval. Eu nunca gostei de nada relacionado a ele, sequer. Música alta, falta de respeito em todos os cantos... A única coisa boa - ou eu deveria dizer menos péssima? – é a cidade ficar ainda mais vazia e meus pensamentos ainda mais audíveis. Isso me agrada. Mas, se antes eu só odiava o carnaval, agora eu odeio tanto, que preciso de uma palavra maior que ódio para expressar isso.
Mas sabe de uma coisa? Dane-se a parte do carnaval. Eu sinto saudades, saudades estilo animal. E estou tentando lidar com isso, mas parece cada vez mais impossível. Foram onze, ou dose anos da minha vida, em que eu corri para ela e agora já era. (O fato básico da coisa: A minha cachorra, Flica, morreu – 21/02/09).
Eu mal consigo acreditar e não consigo parar de lembrar. Eu nunca contei metade de tudo que eu contei para ela, para um ser humano. Eu perdi a conta das vezes que eu me acabava com esse mundo e corria para o jardim, deitava na barriga dela e chorava até cansar, enquanto ela lambia meu pé (fazia cócegas e eu amava, só faltava morrer de rir). Eu perdi a conta de quantas vezes eu peguei aquele focinho gelado e coloquei no meu nariz pra fazer graça, ou quantas vezes eu corri e briguei com ela por garrafas de plástico, ri das quedas desastradas ou mesmo caí com ela por perto, era quase uma competição de desastres. Eu tento não chorar, mas eu me lembro daquele rostinho de medo com lágrimas escorrendo quando ela tinha que ir no veterinário, aquilo partia meu coração. (Meu Deus, nada comparado a tortura de me referir à ela no passado, nada comparado).
Ela ficava tão feliz de me ver que me fazia sorrir leve e sem preocupação, eu não acho que vá existir alguém que me ame tanto. Eu batia, brigava, até judiava dela e ela voltava de mancinho fazendo graça pra mim, sem pedir nada em troca, só carinho. Eu ia pra lá chorando e ela ficava se jogando no meu colo, apesar de ser grande demais pra isso, eu ria e chorava ao mesmo tempo e aquilo fazia qualquer dor passar. Eu comentava as minhas teorias e ela nem sequer saia de lá, a Sisi sempre sai correndo quando enjoa de ouvir a minha voz, eu não ligo, eu sei que ela também me ama, mas definitivamente gosta mais dos meus pais.
A Flica não, ela sempre ficava até demais perto de mim, e escutava até mesmo meus ataques de cantora, quantas saudades. Ela, só ela... Dividia o biscoito de chocolate e o de doce de leite comigo, ninguém mais. Só ela comia até carvão de tão gulosa que era, e me deixava louca quando queria caçar os passarinhos...
Só ela tinha o latido mais alto e assustador, que pra mim era doce e suave, apesar de me fazer tremer as vezes. Só ela me olhava com aquele amor nos olhos verdes esmeralda, como se quisesse que eu ficasse, enquanto o mundo me pedia pra ir embora, ela me deixava ficar. E agora? Bom, eu acho que eu já posso ir embora. Porque eu corro lá pra fora e tudo parece cinza como ela, só que... Sem ela.
Eu nunca pensei que fosse tão doloroso perder alguém e nem que saudades animais seriam tão maiores que as humanas. Espero que o tempo faça doer menos... Essa dor que eu não suporto agora. Eu só queria que ela soubesse, pudesse entender o tamanho do amor que eu tinha, mesmo quando eu puxava as orelhas dela, ou brincava de cavalinho, eu era pequena e não sabia que doía, né? Mas ela voltava me lambendo, sem reclamar sequer uma vez.
E agora a última recordação do meu pelo macio, era uma pele fria e dura por baixo, isso matou o resto de mim que eu ainda conseguia salvar da dor do mundo, do amor não correspondido e da minha confusão. Eu já não tenho certeza se eu existo.
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| Flica (--/06/98 - 21/02/09) |


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