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Medo

Eu odeio admitir que na vida eu tenho um medo. Das muitas coragens que nasceram comigo, esqueceram de mudar essa única, o meu medo. Eu tenho medo de tudo que não fiz. E não se preocupem, essa é só mais uma das minhas crises existenciais. Eis o meu lema: É um fato que se não tivéssemos crises existenciais, não existiríamos. Enfim, voltando ao medo. É o estágio de sentir as pernas bambas e as lágrimas rolando pela superfície branquinha da minha pele. É sentir cada músculo tremer e cada válvula pulsar mais forte, é ver as mãos tremendo e o coração jogado e ainda assim não poder fazer nada. É um estado completo e total de impotência. Sabe quando você sente que arrancaram seu coração e te deixaram sangrando no chão completamente sozinho? Isso é o medo. É assim que ele faz as pessoas se sentirem. E quando eu me encontro envolta por todas essas sensações ao mesmo tempo eu percebo que eu sei do que eu tenho medo: Daquilo que não fiz, daquilo que não vivi. E que mesmo assim, vou adiar. Eu nunca me joguei de cima de uma montanha, mas não vou fazer isso antes de terminar a lista, isso é um fato. Eu nunca beijei um garoto, e acredite se quiser, se curiosidade matasse eu estaria morta e se eu não o amasse tanto, eu já teria feito isso. Longa história. Eu nunca fiz alguém feliz, mas tenho plena consciência de quantos corações já quebrei. Eu nunca andei por aí de porre, nunca dancei sozinha no meu apartamento. Nunca tive um apartamento. Nunca dirigi um carro junto de uma penca de amigas. Nunca fui numa festa, nunca fiz faculdade. Nunca fiz uma prova sem estudar porra nenhuma. Nunca passei mais de três meses sem ler e escrever coisas. Nunca me achei verdadeiramente linda. Nunca passei um dia sem me achar paranóica. Nunca consegui fazer algo pela metade ou desistir fácil de algo. Nunca, nunca, nunca. Nunca ganhei um beijo na nuca DAQUELES. Você sabe... E isso tudo por culpa do medo, do que eu não fiz e do que eu não vi. E talvez do que eu vou fazer no dia seguinte, sabe? Depois de fazer tudo que eu quero fazer, o que fazer? Eu quero fazer uma tatoo, eu quero estar em dois lugares ao mesmo tempo, eu quero aprender dança de salão, eu quero ser magra, eu quero muito muita coisa. Eu apenas quero e o medo quase me impede de querer. Eu quero parar de sentir medo do que eu não fiz. E fazer, porque analisando cada coisa por vez: Eu faria e faria tudo outra vez. Sozinha. Como sempre. E agora, um clichê: Não deixe para amanhã aquilo que você pode fazer hoje, amanhã pode ser tarde demais para fazer qualquer coisa... É a vida, bebês nascem, copos quebram e corações param.

 Tum. Tum. Tum. Tum.

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