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Minha história

 "Não pode". Ok, não pode. De alguma forma foi assim que começou um texto que é pra falar sobre mim. Vim aqui hoje pra te contar a minha história. E acho que esse impulso inicial faz sentido pra nossa história. Parece mesmo que não pode e nunca pôde. E eu nem sei se vou saber te explicar direitinho. Mas vou tentar. Sempre fui muito intensa e muito sensível. Quando coloco essas palavras sinto que me caem como uma luva. Pró-atividade e sobrevivência também são adjetivos que podem contribuir. Mas acho melhor eu começar a tecer uma rede entre esses pontos antes que convidemos o caos, correto? Eu acho que sempre senti uma pressão imensa pra ser perfeita. Não o mundo, mas eu. E pasme: não era muito difícil pra mim. Facilmente eu conseguia seguir as regras, tirar dez, ser uma pessoa agradável. E, quando eu saia dos trilhos, estava tudo bem. Afinal, na maioria do tempo manter a perfeição nos compra algumas fichas de surtos necessários. Estou aqui, com meus 25 anos, escrevendo esse te...
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Estou presa

Se eu pudesse descrever a vida adulta em uma frase, seria essa: sinto-me presa. Enjaulada, sem data de saída do xilindró, sem absolvição e sem perguntas respondidas. Nada do que eu faço eu gostaria de parar de fazer, isso é bem verdade. Mas as horas do relógio funcionam como uma jaula e não há planejamento no mundo que consiga domar esse leão. É pra hoje, é pra ontem, é pra daqui a 60 dias. E nada é decidido por mim. Nada pode ser como eu quero. O trabalho não pode parar. A reforma não pode parar. Os meses não podem parar. Os amigos não podem parar. Nada pode parar. E, por consequência: nem eu. A hora do trabalho emenda com a da reforma que emenda com a de fazer o almoço que emenda com a amiga no whatsapp que emenda com a festa de aniversário que emenda com o banho dos cachorros que emenda com o jantar com meus pais que sai emendando com o que mais tiver pela frente. E o resultado é uma frase enorme, sem pausas e cheia de intercorrências. Não é muito trabalho, de fato... mas é muita co...

Uns bla-bla-blás da pandemia

Fazem praticamente 72 horas que eu estou deitada. E há uma voz que sussurra, quase como uma ordem, que eu deveria levantar, eu deveria corrigir os trabalhos que estão se acumulando, eu deveria fazer tantas coisas. E eu aqui: deitada. Televisão acesa, seriado passando, comida quando dá e quando eu bem tenho vontade, celular com jogos inúteis nas mãos. E, por mais que os pensamentos do tipo "deveria" sejam considerados erros cognitivos, nesse caso, creio que a maioria das pessoas concordaria que eles estão corretos. E outras pessoas - ou até essas mesmas pessoas, podem crer que eu esteja deprimida ou coisa parecida pelo ritmo doença-terminal-crônica que esse texto começou. Mas tem algo sobre esse ritmo que é viciante, entorpecente, profundo, trôpego e reconfortante. Eu me reconheço, me monto e me desmonto nele - me crio, me reviro, me refaço, me desfaço, me curo e me adoeço. É tudo muito eu. É um bêbado caindo na calçada no pior dia da sua vida e a pessoa mais feliz do mundo da...

Gotta find me.

Sinto que fiz um trabalho muito bom em decidir quem eu sou, o que eu gosto, como eu me satisfaço, quais as minhas predileções, quais os meus desgostos. Passei a adolescência imersa em livros, poesias, ócio, seriados, filmes e relações intensas. No meio de tudo isso, ficou claro como cristal as perguntas existenciais que um dia eu tanto me fiz. Encontrei formas de ficar satisfeita e até um pouco enamorada das partes de mim. Mas... Incompreensivelmente... Fiquei pelo meio do caminho. Me perdi. Deixei de ser como eu era pra ser da forma que eu "precisava ser": corre, corre, corre. Meu ócio foi tirado de mim, a vida se tornou mar agitado e terremoto. Ficou remota a possibilidade de permanecer na intensidade que tanto era EU. Como eu faço pra ser eu rápido? Como eu faço pra fazer manutenção no meio da impermanência? As pessoas não têm tempo. Correm todas de um lado para o outro. E no meio do furacão... Eu me pergunto se é possível construir aquele mesmo vínculo intenso do dia a ...

O trauma interrompido

Ódio. Ódio. ÓDIO. Ódio desse raciocínio da criança morrendo de fome na África. Em que momento os seres-humanos começaram a ficar tão desprovidos de bom-senso que começaram a pensar: "Ahá, sabe o que vai fazer aquela pessoa se sentir melhor? Saber que tem gente morrendo de fome, saber que tem gente que mata crianças acidentalmente, saber que tem gente que não tem emprego...". Será que eu sou a única pessoa do mundo que não encontro alegria na desgraça alheia? E pior: se a intenção não for fazer a outra pessoa melhorar, só pode ser então a de emprestar a pá pra pessoa cavar o fundo da sua própria cova. -'Eis o relato de que está uma merda' -'Relato de crianças morrendo na África' -Então cavo o túmulo? -Isso!! A vida é uma merda. Toma aqui a pá. SINCERAMENTE. Quando foi que deu errado? Parece a competição pela pior desgraça. Consolo zero, empatia zero. ZERO. ZERO. ZERO. E culpa e responsabilização voando para todos os lados... Faça oração, faça donativo...

Os ladrões de arco-íris

Quando eu era pequena eu li um livro "Câmera na mão e o Guarani no coração" e hoje me peguei pensando como seria esse título reescrito hoje: "Celular na mão e onde está meu coração?" - talvez fosse esse. Já não percebemos mais os mecanismos de controle. "Ah, eu amo dançar". Aí sempre tem aquele amigo "pois faz aula de dança que é bom pra saúde". Lá vai você: aula de ballet, aula de jazz, fit dance. E onde foi parar o dançar em frente ao espelho? Ficar horas com seu fone de ouvido pulando, dançando e cantando sem regras e sem aulas. Alguém sabe onde ele anda? São regras por todos os lados. Até nas nossas aulas de dança. Houve um tempo em que as coisas eram feitas por prazer? "Ah, eu gosto de correr na praia". Aí lá vem: "compra um relógio daqueles mais modernos que mede quantos quilômetros você correu e quantas calorias você perde". Controle. Controle. Controle. E mais regras. Tudo que a gente ama vira trabalho. "O...

O que é, pra mim, sobreviver?

-Assim, de supetão? -(...) -É ter tudo que eu preciso, mesmo que eu não possa ter o que quero. -(...) Um dia já foi escuro. Ao redor do futuro havia lástima e, no presente, lágrimas. Entrei num oceano com um barquinho à lá Moana e ninguém (nem eu) sabia o quanto eu poderia ir. Mas, eu fui. Perdi pedaços do barco, nadei, parei em ilhas desertas e acabei chegando. Por incrível que pareça, eu cheguei no mesmo lugar. Mas nada era mais igual. Eu era outra, tinha outro barco e, dessa vez, eu não queria ir para lugar nenhum. Encontrei luz para o breu de escuridão de outrora. Até quando durarão as velas? Ah, sim. Eu deveria falar de sobrevivência. Sobre. Vivência. Viver por cima. Acima há luz, me parece. Se eu conto até três para definir sobrevivência, eu penso: pessoas, pessoas, pessoas. Se eu continuo contando: cinema, livros (que saudade!), estudos (espero o dia!), seriados, massagens, academia, passeios, cachorros e a lista vai se desenhando. Se desenha com necessidades que mantém...