"Não pode".
Ok, não pode. De alguma forma foi assim que começou um texto que é pra falar sobre mim. Vim aqui hoje pra te contar a minha história. E acho que esse impulso inicial faz sentido pra nossa história. Parece mesmo que não pode e nunca pôde. E eu nem sei se vou saber te explicar direitinho. Mas vou tentar.
Sempre fui muito intensa e muito sensível. Quando coloco essas palavras sinto que me caem como uma luva. Pró-atividade e sobrevivência também são adjetivos que podem contribuir. Mas acho melhor eu começar a tecer uma rede entre esses pontos antes que convidemos o caos, correto?
Eu acho que sempre senti uma pressão imensa pra ser perfeita. Não o mundo, mas eu. E pasme: não era muito difícil pra mim. Facilmente eu conseguia seguir as regras, tirar dez, ser uma pessoa agradável. E, quando eu saia dos trilhos, estava tudo bem. Afinal, na maioria do tempo manter a perfeição nos compra algumas fichas de surtos necessários. Estou aqui, com meus 25 anos, escrevendo esse texto e pensando no meu passado "ilibado": nunca reprovei em nada, emendei a escola na faculdade no mestrado no trabalho, sempre fui primeiros lugares, se tem o excelente eu me encaixo nessa métrica... Em tudo. Teste de inglês, conceito da faculdade, carteira de motorista... Tudo que eu me proponho a fazer eu faço e faço muito bem. "Essa sou eu". Isso é muito meu. Eu não acredito que alguém tenha me dito pra ser assim. É meio Gabriela mesmo... Nasci assim. Se a tarefa é minha, só há essa forma. Porque é a minha forma. E pronto.
No entanto, essa pressão da perfeição vem com um certo preço. Um preço de uma performance de desempenho que, por si só, é estressante. Quando eu era mais nova, inclusive, eu era bem ansiosa. Parecia que o mundo ia acabar constantemente e eu só chorava ao sentir o desastre iminente e o meteoro que anunciava a chegada. Cresci e percebi que isso era irracional (obrigada mãe por ter dito que não ia criar ninguém louca - pode parecer que foram palavras fortes, mas foram as certas! Eu tinha confiança no nosso mar de amor e quando você me disse isso, percebi que meu medo de ficar sozinha no mundo e não saber dirigir e me virar aos doze anos era irracional - e aí passou). Com uma frase parece que eu me "ajeitei" e pronto. Tem uma frase da Lorelai que ela diz assim: "a Rory foi de fácil manutenção, ela praticamente se criou sozinha". Em alguma medida, acho que fui um pouco assim.
A ansiedade então se dissipou. E não quis retornar desde então. A última vez que a vi de perto mesmo foi aos doze anos. Mas o estresse da performance ficou. São muitas tarefas pra pouco eu. Eu, pequena, dramática, intensa... "Segura aí dentro". E eu fico tentando engolir essa sensibilidade toda. Mas começo a concluir que não sei ser eu sem ela. De tudo que eu listei, a sensibilidade vem antes. Sinto primeiro e sou tudo isso depois. A minha sensibilidade me faz livre. Meu choro, meu olhar pro outro, minha alegria e minhas raivas fazem tudo ter cor. E não posso ser sem isso. Minto - até posso, mas não quero.
Mas deixa eu te falar do nó na minha garganta. Do "não pode". Sempre senti que eu não posso expressar essas emoções todas. Que é errado mesmo. Sempre que eu experimentava a minha liberdade - todo mundo entrava em pânico. Minha mãe, meu pai, meu Marcos... "Não pode sair descontando nos outros". E me parece incoerente não poder descontar nos outros aquilo que é deles. Não é como se eu ficasse louca e saísse por aí culpando César pelo que fez João. Estou ficando com raiva de César e dizendo pra ele de forma bem assertiva. "Não pode" porque é seu pai, porque não vai resolver, porque a cultura brasileira é inapta pra esse tipo de situação.
E aí soma minha necessidade de fazer o melhor que posso em tudo (estresse de performance) com a impossibilidade de expressar o que sinto... Implosão. Porque, afinal, se me passam uma regra eu sigo. E não pode explodir. Então vamos pra dentro. E faz tempo isso. Faz tempo que coleto evidências que não posso explodir: não faça isso porque seu pai não vai gostar, não diga aquilo, não vamos falar de coisa ruim, não fique triste, agradeça, entenda que isso aconteceu. Ok, eu entendo. Mas eu acho que sou autorizada a entender e a chorar. Porque sim. E pronto.
E, talvez por ser "bem ajustada demais" eu fico aqui morrendo de estresse pela sufocante e horrenda sensação de que eu não posso perturbar a ordem desajustada dos demais. Que ódio que eu sinto ao ver uma chuva de inadequação e não poder dizer nada. Cada vez mais fica difícil ir mordendo a língua pras palavras não saírem.
Não consigo aceitar e não consigo conviver! Desde as carteiras de cigarro que eu jogava no lixo pro meu pai não fumar até hoje. Certas regras do bom senso não se dobram. Eu sou assim, você seja como lhe convém. Licença.
Acho um absurdo uma pessoa de mais de 50 anos não ter uma rotina de alimentação. Independente de mim! É inconcebível a realidade onde eu preciso fazer o almoço dessas crianças. É inconcebível a situação em que vivem os cachorros aqui de casa. É incoerente o discurso de paz misturado com a necessidade de abraçar o caos. Ou se abraça um ou o outro! Não há horário, rotina ou sequer sinais de ordem. Há um "deixa viver" e "deixa ver". Tudo é adiado e deixado pra depois. QUE HORROR! E isso é com tudo. E eu não aceito isso com nada.
Mas ou eu abraço o caos. Ou eu morro.
Mas de tanto abraçar o caos... Eu sinto que estou morrendo.
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