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O seco

Eu sinto a minha boca seca, desgosto. Eu sinto a garganta seca, desespero. Eu sinto meus olhos secos, não há mais lágrimas. O coração antes de todos foi o que secou primeiro, a dor corroeu meu corpo, eu finalmente morri por inteiro. Eu não agüento ser de pedaços, já nem sei por onde começar a juntar todos os pedaços de mim, já nem sei se posso ser uma só novamente. Só me restam meus pedaços, perguntas mal respondidas e sorrisos que não eram para mim. Não me contento com os restos, eu quero me sentir inteira e verdadeira por um único minuto na vida. Eu quero olhar no espelho e ver que eu superei o passado, sei viver o presente e não vou mais estar completamente morta no futuro. Eu quero ganhar um motivo para sorrir por inteiro, eu quero ser amada por inteiro, eu quero me jogar em todas as emoções por inteiro, a minha vida toda eu vivi em pedaços de pensamentos e cautela, eu quero quebrar as regras e acabar com todas elas. E não adianta que por mais que as lágrimas acabem, ela volta e me fazem sofrer. Por todas as palavras que eu não disse, pelos momentos de amizade que só uma metade minha estava lá, pelas palavras ditas que magoaram, pelos sorrisos educados que nunca importaram, as lágrimas rolam por todo o meu rosto, completas e verdadeiras como eu sempre quis ser, inteira. A minha respiração não seca, nem sente, continua e prossegue, sozinha e sem se importar com a gente, ela apenas está lá e vai estar sempre lá e esse é o problema, não é suficiente estar lá, eu preciso senti-la, usá-la, vivenciar cada passagem de ar nos meus pulmões, só aí eu estou viva. Eu não quero que ele esteja lá, que nenhum deles esteja, e não quero que estejam aqui comigo, mente e coração, coração na mão e mente sofrendo. Quero senti-los, tê-los e amá-los como quero e não consigo, por inteiro. A minha última esperança é alguém que me ensine a ser inteira, se eu provasse o gosto de ser inteiramente feliz por um único minuto talvez eu não conseguisse mais parar e não me importasse mais em me sentir mal por uma fração de segundos, não mais. O único amor que eu me entreguei na vida, (ok, dois)... Cada um mais platônico e doloroso que o outro, claro que eu o amo, amo porque é impossível, é uma desculpa pra amar alguém, é ridículo gostar assim. Eu uso uma capinha de que to bem e sou animada, pra tentar fazer os outros felizes e porque eu não gosto de me abrir com ninguém, é difícil falar de mim. Mas é que eu me sinto tão só, eu olho em todos os lados e não tem ninguém, nada. Eu fico só com os se's... Se alguém tivesse aqui, se eu fizesse isso, se eu fosse assim, passa o tempo e isso tudo machuca mais ainda. Regras para todos os lados, quanto mais eu penso, mas vontade de morrer e de sofrer me dá. Eu sinto que eu mereço, eu só não acho um porque. Eu sei que eu sou humana, e que eu cometo erros. Mas é esse o problema, não são os meus erros que me matam, são os erros dos outros comigo, que são feios e machucam. E a maioria é a longo prazo, continua, eu deixo uma marca nas pessoas, eu não sei como eu faço isso, mas eu faço. Eu sinto que faço.

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