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Tudo outra vez

Esse não é um daqueles momentos da vida onde se acorda feliz e diz: Hoje vou viver tudo outra vez. Não. Esse é um daqueles dias onde você acorda e diz: Vão me forçar a reviver tudo, outra vez. Outro ano. Minha cabeça dói, eu a jogo para trás junto com o corpo. Caio na cama e fecho meus olhos, dedico a minha atenção a mente e tento entender o motivo. Uma única pergunta: Por quê? Não, não soa justo. Me apoio com os braços, abro os olhos e chega a hora da balança. Será que vale a pena? Não. Nunca vale. Acordar seis horas da manhã, colocar aquela roupa ridícula que te deixa num formato de barril nada interessante, calçar aquele tênis lindo {quem olha o tênis quando você está usando aquela roupa? Qual é!}, arrumar aquele seu cabelo indeciso com aquele seu jeito indeciso {o cabelo nem é liso e nem cacheado, você não sabe se amarra o cabelo, se coloca uma fivela ou se deixa solto}, você decide se tem tempo ou não para dar uma arrumada na cara: Não. Pega uma bolsa com uns oito livros dentro e coloca na sala, confere se está tudo dentro: cartão magnético, agenda, livros, celular e assim vai. Não. Sempre há algo perdido e você tem 30 segundos para encontrar, mesmo depois daquele banho frio. Você pega o fichário, a bolsa, coloca tudo em cima de você, entra no carro ainda comendo o seu café-da-manhã porque graças ao objeto perdido você não teve tempo de comer como uma pessoa normal, quem se importa? Além de você, claro. Isso sem contar os incidente de percurso: aquela comida chata que prendeu no seu aparelho ridículo e não quer sair, aquela liga que se escondeu enquanto você dormia, aquele suco que te fez engasgar, enfim, são muitos. Você liga o rádio e procura aquela música que você ama, com a esperança de que isso anime completamente a sua manhã, você encontra? Não. Você chega no colégio, desce do carro e quase leva uma queda. Pede para o guarda parar os carros e atravessa correndo porque já deu o primeiro toque, você já devia estar na sala. Chega na portaria com o cartão na mão, mas ele não quer de jeito nenhum ser reconhecido e adivinha só, você não consegue entrar. Aí o porteiro te ajuda a passar e você com aquela cara amassada, ainda tentando entender porque está ali diz: ‘Obrigada’. Você passa por ele correndo, sobe dois lances de escada e esbarra naquela professora que você odeia, ela finge que te ama e te dá bom dia, você não vai responder! Acena com a cabeça. E sobe mais um lance de escada. Chega à porta da sala e descobre que o professor não está lá: Uma coisa boa! Procura uma cadeira e acaba formando aquela confusão generalizada de quem vai ficar aonde por causa dos grupos recém formados e dos antigos, que já tem lugar marcado. Você acha um lugar para sentar, abre o fichário, pega o estojo, senta escondendo aquela roupa que te deixa com 10 quilos a mais e conversa com a sua amiga. Porta da sala: fechada. Então você tem a bela surpresa, o professor, logo quem! Ao menos isso esclarece o atraso. São cinqüenta inexplicáveis minutos de aflição, o que eu faço agora? Terminado aquele dia de aulas horroroso, onde você brigou com seus amigos no recreio {isso é rotina!}, e correu para falar com aquele monte de gente ocupada que você ama. Você sai do colégio e volta para a portaria, ‘Eu podia ter ficado dormindo, o conteúdo foi só revisão PORRA!’. Aí você entende o peso no seu corpo quando você jogou ele na cama junto com a cabeça e o coração. A saudade mata mais devagar do que a frustração, fique em casa. Ah, eu quase esqueci que precisamos estudar, trabalhar, casar, ter filhos, trabalhar para os filhos, deixar os filhos saírem de casa, se aposentar e morrer. Claro, como isso é a melhor coisa do mundo, não fiquem em casa e bom café da manhã no carro!

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