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Um feliz último dia do ano

“Morreu aqui”, uma frase incomum de se ouvir no meio de uma música calma e tranqüila, como é de fato “Linhas Tortas” do Diwali. E ao levantar os olhos, uma figura só, e apesar de só uma é difícil saber para qual direção olhar. “Calma!” Foi a segunda sentença de voz humana que se fez ouvir, alta, trêmula. Moreno, com mais ou menos um e oitenta de altura, blusa vermelha com detalhe branco, uma bermuda branca com bege e um par surrado de chinelas havaianas, ah ué, eu devo estar maluca de fazer todo esse drama por um cara normal, como qualquer outro, certo? Bom, no momento que você realmente levanta os olhos num único impulso e percorre a extensão do braço com os olhos, surpresa: uma arma, uma pequena palavra de quatro letras, duas delas são até mesmo repetidas e isso não faz a menor diferença, preta de um caninho bem pequeno, eu nem mesmo sonho em saber o modelo, estou longe de ser PHD nesse assunto, talvez em termos jurídicos, mas não em armas. Se era de brinquedo ou de verdade? Mas como é que eu vou saber? A única coisa que eu sei é que foi um daqueles momentos que durou uma fração de segundos e que eu poderia escrever folhas e mais folhas, mas não irei, simplesmente porque não quero. De uma hora para outra ele se virou em um movimento brusco e entrou pela porta, não o carinha de blusa vermelha, ele. Eu tinha uma decisão a ser tomada em menos um segundo, com o nível de adrenalina maior do que um dia eu pensei que ele pudesse ser afinal, eu preciso assumir que uma das poucas coisas que me fazem tremer é ter uma arma apontada na minha direção e se nunca tiveram não me julguem está bem? Mas enfim, a tal decisão: à minha frente dois batentes que levavam a morte e atrás de mim, um movimento brusco entrando em casa, fiquei com a segunda opção e me juntei ao vulto, surpresa: porta fechada. O fato de a porta ser emperrada há meses já havia virado motivo de piada, mas nessa situação eu não achei nada engraçado, certa vez disseram: “Se algum ladrão tentar entrar aqui, não tem como não escutarmos”, uma meia verdade, nós o ouvimos muito bem de fato. Bem, um grito que eu nem me lembro se foi alto ou abafado, mas em meio a toda a situação foi à única coisa que a minha garganta deixou ser ouvida: “E eu aqui?!”, um último grito com o medo de saber que atrás de você havia uma arma apontada. Fechei meus olhos, ainda jogada por cima da porta e sem desistir de abrir a fechadura. Meu nome eu ouvi uma vez e sei de onde vinha, não preciso que me digam. E ainda com os olhos fechados, tudo passou. Simples assim, me deixando mais uma mágoa enorme que acabou de pisotear meu coração maltratado e a vontade de um abraço dele, bem dado. Passos de uma chinela surrada correndo como o vento para longe dali, numa direção que pode ser definida apenas como direita. A porta se abriu e três rostos ficaram ali, perplexos. E só me restaram meus gritos de ódio, de uma situação onde eu precisava culpar alguém pela minha mão estar tremendo e eu não saber se tinha um coração, eu estava fora do meu controle, que merda, eu não consigo estar fora do meu controle, eu não posso, mas eu estava. Então nada melhor do que descontar a minha raiva na pessoa desse mundo que mais me causa raiva, e é isso. O meu ponto de vista de um “Feliz” último dia do ano. Posso falar uma coisa? À merda com esse feliz, que até o meu dia mais feliz do ano, o dia do não, foi o mais triste, porque me tirou as esperanças de que a melhor noite da minha vida, fosse de fato a melhor noite da minha vida, mas quer saber? Está tudo bem, foi a quase melhor noite da minha vida. E agora que eu já comecei a misturar os assuntos é melhor parar por aqui.

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