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O momento exato

Quando é que deixa de ser fácil? Em qual momento da vida as pessoas passam a saber palavras demais que conseguem deixar qualquer conversa muito complexa, muito difícil, extensa e longa... quando as pessoas aprendem a dizer: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconióticos, que é a maior palavra da língua portuguesa? Mas eu lembro que quando eu a aprendi, eu só sabia ela, então talvez o momento não seja esse. Mas também, quando eu aprendi me disseram que era a maior palavra do mundo, mais complexamente, o mundo é maior e as palavras das outras gramáticas também. Às vezes eu tenho a sensação de ser tudo um ciclo círculo sem fim!
Quando é que as amizades se tornam desconfiadas? Em que momento da vida perdemos a capacidade de nos dar bem com qualquer criança e sempre chamar uma a mais pra brincar? Será que é um efeito da independência ou a independência é um efeito da complexidade? Às vezes penso que o momento onde tudo acontece é quando entramos em contato com o nosso vazio, aquele pedaço de nós que nada nunca poderá preencher, que a psicanálise chama de objeto pra sempre perdido, que a análise do comportamento diz serem eventos internos, que o humanismo diz ser um eterno desdobramento de sentidos... São todas sentenças: um para sempre de procura e angústia ao qual todos estamos fadados, sem saber o que procuramos, sem saber o que significa o conceito de angústia. Mas ao ler isso, entendemos, acolhemos, sentimos o mesmo de um jeito irracional!
Será que a culpa é minha, sua, nossa ou só da gramática? Bendito comportamento verbal, desverbalize-se! Deixe que os coleguinhas de sala sejam suficientes novamente. Procuramos sarna para nos coçar, mas também, se não procuramos, parece que o pó de mico cai do céu. Entregamos nossos corações uma, duas, dez, duzentas vezes na vida na esperança de que uma única pessoa seja uma boa metade de laranja cuidadora de corações, aí nenhuma é, paramos de querer entregar: complexo, bagunça, o ciclo todo de novo! Até quando? Até quando?!
Ué, será que faltam corações no mercado? Ou faltam pessoas pra cuidar? Ou falta só a coragem de chamar o amigo pra brincar? Ou falta a mãe pra incentivar a chamar o amigo? Angústia é isso: saber da falta sem saber o que ela é.
A coisa é tão complexa que essa junção de palavras, eu mal sei se faz sentido. Estou triste, não me fiz entender mais uma vez, simplifico a você que lê. E na complexidade das possibilidades humanas, a palavra frustração pode ser "causa" da palavra escrever compulsivamente... Acho que faz sentido, quem não consegue se fazer entender, morre tentando se explicar. 
Mas, qual o momento exato em que olhamos pra vida e vemos enigmas no lugar de hipóteses facilmente corroboráveis... É num dormir-e-acordar só? De repente somos complexificados à infelicidade de complicar? Numa única noite? Se foi, hoje eu pergunto, mesmo amando dormir: Meu Deus, porque que naquela noite não me acordaram?!

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