Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de junho, 2010

A short history: Corações parados, corações partidos.

-Eu vou lá! Não, não tenta me impedir, Luís. Eu vou lá. -Cara, o que é que você pretende fazer? Se nem os médicos conseguiram... -Luís, aquele filho da mãe, segurou meu peitoral com o braço. Eu agradeceria a ele depois. -Eu fiz isso. A culpa é minha, eu sou o monstro que colocou ela lá. Eu tenho que ser quem vai tirar ela... quem vai salvar... Mas era inevitável. As máquinas pararam, o quarto esvaziou, os médicos repetiam pêsames e desculpas, o coração dela, tão acelerado, nunca mais iria acelerar, nunca mais iria bater. Eu não ia ver o peito dela inchar de ar quando nos empolgávamos com os beijos. E a culpa era minha. E eu nem conseguia chorar. Porque eu não consigo chorar? Luís me empurrou até a porta do quarto, mas eu não podia me mecher. A verdade era essa, eu nem sequer conseguia piscar. -Vai lá. Diz adeus, cara. Eu entrei no quarto claustrofóbico, cheirava a éter, mas a pele dela ainda cheirava a ela. Os lábios quentes eram frios e eu não pude suportar, senti uma única lágri...

Clichê

Eu não sou uma fruta, eu tenho ossos, músculos e articulações. Eu não posso ser a metade de uma laranja. Eu não sou uma fruta. Isso é tudo um grande clichê. E quer saber? O mundo também não é redondo, isso é clichê. O mundo deve ser tão quadrado quanto as pessoas que moram nele, elas aquadradaram o mundo. Elas são clichês ambulantes que cospem frases decoradas pra fingirem uma superioridade falsa, mas elas que me provem que tem o mais importante. Que tem frutas, que tem metades, que tem laranjas. Elas não tem laranjas, elas tem livros. Eu também tenho livros, a diferença é que eu não os leio. Porque eu procuro frutas, porque eu sou um clichê redondo-fruta-laranja. Eu procuro frutas embaixo da mesa e em cima da pia e eu deixo o livro aberto juntando poeira, na mesma página, por dias. E talvez, eu seja o clichê. Talvez eu tenha me tornado clichê apenas pelo número de vezes que eu proferi tal vocábulo hoje, talvez eu seja clichê por querer exercer meu léxico requintado. Mas que não seja c...

Decepção

April estava deitada em sua cama, cabeça no travesseiro e o coração, ela havia deixado com ele. E não, ele não cuidava bem dele. Ela levantou e penteou o cabelo, passou um rímel e um pouco de pó. Queria ficar bonita, bonita pra ele. Colocou um vestido, trocou, uma calça, trocou e depois de muita troca decidiu-se por um, ou algum, enfim: decidiu-se. Ela não poderia contar nem se quisesse quantas vezes se olhou no espelho ou por quantos carros no caminho, passou e tentou fitar a si mesma em retrovisores alheios para conferir se o rímel não estava borrado, se o vestido preto não estava amassado, se ele não a deixava gorda. Não, ela não poderia contar nem se quisesse. Saiu de casa com seu pequeno salto e passos trópegos. Sorriu para algumas pessoas na rua e nele, deu um abraço além de um sorriso, enquanto tentava segurar seu coração no ritmo, sim, ela queria contar pra ele que seu coração era calmo, só ficava agitado assim por ele, com ele... Seu coração era de-dele. -Não gostei dessa ro...

Antônimo

Você era agitado, animado, era 90%. Você era vermelho. Eu? Ah, meu amor, sublime amor... Eu era o branco. Eu era calma, escondida, eu era 10%, você só via 10%. Pra mim, eu era a calmaria do fim de tarde do teu mar turbulento de ondas altas, pro resto do mundo era a incompatibilidade total com um camada final de teimosia minha. Eu me apagava no meio da multidão, ela cercava você e te jogava beijos. Eu gritava seu nome num impulso e mesmo que você olhasse, eu era pequena demais pra enxergar você naquele mar de gente. Você nadava num mar de ondas, você se cobria de amor. Eu era empurrada pra beira da praia, eu sempre me encontrava de volta à areia, eu não conseguia lutar contra as ondas. Eu não tinha forças, eu era pequena. Até que um dia, você abriu caminho no meio da multidão e me estendeu sua camisa vermelha que se enrolou na minha pele branca. Molhado, colado e grudado. Eu sorri um sorriso sem cor e você respondeu com um abraço de dor. Era isso, era por isso que você era vermelho, v...

Manias

Eu não entendo as manias. Tenho muitas, mas não entendo. Às vezes me parecem pequenas ironias voadoras, eu, que odeio repetições com todas as forças, cheia de manias. E manias, para serem manias, tem que ser algo rotineiramente repetitivo. Algo tão irritantemente necessário que precisa-se fazer mais de uma vez. Mas sabe, eu tenho mania de você. Eu tenho mania de comer sorvete e pudim direto do pote e da forma, respectivamente. Eu tenho mania de fazer listinhas antes de fazer qualquer coisa, porque a minha memória não presta? Não que eu ache que isso fosse me impedir de fazer minhas listinhas. Mas whatever. Eu tenho mania de escrever (bom dia, constatação óbvia! A quanto tempo não nos víamos, huh?). Eu tenho mania de sentar no chão com as famosas perninhas de índio da infância feliz. Eu tenho mania de riscar qualquer pedacinho de papel ao alcance dos dedos. Eu tenho mania de comer gelo, cubos e cubos e cubos, e todos os outros formatos. Eu tenho mania de falar em círculos e testar se...