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A short history: Corações parados, corações partidos.

-Eu vou lá! Não, não tenta me impedir, Luís. Eu vou lá.
-Cara, o que é que você pretende fazer? Se nem os médicos conseguiram...
-Luís, aquele filho da mãe, segurou meu peitoral com o braço. Eu agradeceria a ele depois. -Eu fiz isso. A culpa é minha, eu sou o monstro que colocou ela lá. Eu tenho que ser quem vai tirar ela... quem vai salvar...
Mas era inevitável. As máquinas pararam, o quarto esvaziou, os médicos repetiam pêsames e desculpas, o coração dela, tão acelerado, nunca mais iria acelerar, nunca mais iria bater. Eu não ia ver o peito dela inchar de ar quando nos empolgávamos com os beijos. E a culpa era minha. E eu nem conseguia chorar. Porque eu não consigo chorar? Luís me empurrou até a porta do quarto, mas eu não podia me mecher. A verdade era essa, eu nem sequer conseguia piscar.
-Vai lá. Diz adeus, cara.
Eu entrei no quarto claustrofóbico, cheirava a éter, mas a pele dela ainda cheirava a ela. Os lábios quentes eram frios e eu não pude suportar, senti uma única lágrima derrapar e resolvi ir pra casa. Para a nossa casa. Sem ela. O casaco jogado sobre o sofá, as sandálias de salto na porta da casa, o copo de água em frente à TV, as revistas sobre a mesa da sala... Fui, fugi, na verdade, para o escritório. O local que ela tanto odiava, o local onde o coração dela resolveu me deixar quando ela avisou que ia me deixar. Ela já não aguentava mais me ver trancado aqui, da hora que acordava até a hora de dormir, ela já não aguentava mais ser a única pessoa amando intensamente. E eu nunca disse a ela que ela não era a única, que eu a amava. Mas se não disse antes, digo agora. Ela, que me elogiou escrever bem a vida toda, e nunca recebeu sequer um escrito meu para ela. Se eu pudesse voltar atrás...

"Angie,
Eu ainda lembro da primeira vez que eu te vi. Você era aquela coisinha indefesa, pequena, branquinha, que me disse o nome com muito custo. E quando eu falei que seus pais acertaram no nome, pois você era um anjo. Você disse: "Previsível. Não vai ser a primeira e nem a última vez que eu ouvi isso". E eu percebi que você não era tão indefesa assim... E por sorte, eu pude mandar todos os carinhas que te disseram isso de novo, irem passear, porque você era minha. Eu senti isso, sabe? Eu não queria prender você, não queria tomar posse, mas no mundo todo,onde eu e você poderiamos estar senão juntos? Era difícil, e um tempo depois era impossivel me ver sem você, simplesmente porque quando você chegava, com cara de mal humor e sono e soltava qualquer palavra imprevisível eu sentia como se aquilo já fizesse parte de mim por inteiro, não existia o antes e nem o depois, só o seu de repente me fazendo rir. Você amava a vida, como eu nunca tinha visto ninguém amar nada.
Você me forçava a sair do casulo, a ver a luz do sol, andar de bicicleta, comer doce e ver borboletas voando. Você tirava fotos, você tocava meu rosto, beijava minha boca, meu pescoço, você falava e demonstrava o que sentia na flor da pele e eu não precisava, porque você sabia ler meu por dentro. E ah, como eu amava seu rosto, sua boca, seus olhos, seus braços, seu colo... seu cheiro. Sonhar com você e acordar com você do meu lado e não precisar voltar a dormir pro sonho continuar, você era o meu sonho. Você realizou todos os meus sonhos. Os mais simples, os mais intensos, os mais malucos. Aos poucos, andar com você de mãos dadas pelo centro da cidade era um sonho. Sua mania de não ter uma cor, um lugar, uma comida favorita me fez esquecer que eu não vivia sem um bom bife com batata frita e me fazia lembrar disso vez ou outra quando, no momento mais imprevisivel a gente ia jantar na varanda. Você era imprevisível e isso me matava e ao mesmo tempo me fazia sufocar de tanta vida que transmitia.
E sabe, amor, eu odiava quando você deixava a toalha no chão do banheiro. Eu odiava quando você deitava no meu lado da cama e não queria sair, quando você tomava o controle remoto e desmarcava as páginas dos meus livros. Eu odiava a sua mania de inventar novos hobbies, pintar a casa, sujar tudo de tinta, mudar as coisas de lugar, aprender a fazer jarros... Mas eu amava você por ser a única pessoa que me lembrava o que era sorrir, o que é estar vivo. Agora, o chão do banheiro já não me deixa com raiva, a cama já não me faz querer discutir, o controle remoto eu já nem quero mais ver e os programas de TV são todos chatos e às vezes, eu acho que é porque eu posso ver o que eu quiser, às vezes, porque eu vou vê-los sozinho. Meus livros com as páginas certinhas, não quero mais lê-los, com quem eu vou discutir as histórias? De que valem páginas certas sem sua risada alta no fim do dia... Nada, isso que vale.
Quando você não me entendia eu me desesperava. Como ela pode não me entender se eu sei tudo que ela quer só de ouvir a voz? Eu sabia tudo, eu sentia tudo em você e eu fraquejava. Eu tinha medo de fazer todas as suas vontades e um dia você se cansar e ir embora. Eu acumulava coisas, eu não fazia nada até o fim porque qualquer coisa que me lembrasse fim perto de você me tirava o chão, me roubava o ar. Eu deixava os bolos pela metade, os assuntos pra terminar no dia seguinte, as flores pra comprar em outra data. Mas não era desleixo, era medo, medo de que tudo pudesse acabar. Era vontade de prolongar tudo quando você estava por perto.
Você era sutil como o vento no final da tarde carregando as folhas do chão, meu amor. Você não me comprava o mundo, nem fazia juras de amor. Você não me cobrava, você apenas sabia amar com a sutileza de como uma modelo sabe se portar num daqueles vestidos de gala. Você deixava recados no vapor da porta do box, bilhetes na porta da geladeira que tinham corações nos pingos dos is... E eu não me cansava de olhar pra eles, não me cansava de olhar pra você. Será que você sabia o poder que tinha a sua voz sobre mim? Eu ia fechando os olhos e logo só escutava você e não precisava de mais nada no mundo inteiro. Era difícil me sentir mal, me sentir morto, quando eu deitava abraçado com você no sofá e nosso corações batiam juntos, ritmados numa canção de amor.
Não é triste, é inimaginável que isso não vá acontecer de novo.
Os telefonemas no meio da tarde quando eu menos esperava, só pra contar que viu aquele prédio engraçado de janelas azuis. Não vai mais acontecer o almoço onde só você comia e eu ficava te olhando, não vão acontecer os beijos e a noites, nada mais. É o fim. O nosso fim e o fim desta carta".

É o fim, simples assim. Simples assim.

Por Lia Wagner e Rita Braga.

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