Fazem praticamente 72 horas que eu estou deitada. E há uma voz que sussurra, quase como uma ordem, que eu deveria levantar, eu deveria corrigir os trabalhos que estão se acumulando, eu deveria fazer tantas coisas. E eu aqui: deitada. Televisão acesa, seriado passando, comida quando dá e quando eu bem tenho vontade, celular com jogos inúteis nas mãos. E, por mais que os pensamentos do tipo "deveria" sejam considerados erros cognitivos, nesse caso, creio que a maioria das pessoas concordaria que eles estão corretos. E outras pessoas - ou até essas mesmas pessoas, podem crer que eu esteja deprimida ou coisa parecida pelo ritmo doença-terminal-crônica que esse texto começou. Mas tem algo sobre esse ritmo que é viciante, entorpecente, profundo, trôpego e reconfortante. Eu me reconheço, me monto e me desmonto nele - me crio, me reviro, me refaço, me desfaço, me curo e me adoeço. É tudo muito eu. É um bêbado caindo na calçada no pior dia da sua vida e a pessoa mais feliz do mundo dançando na chuva. Sou eu, que quase nunca caibo no mundo, cabendo nas muitas horas do relógio pelas quais me derreto e me perco. E fique à vontade pra argumentar que todas essas linhas se somam no mais belo dos impropérios. Por mim, tudo bem. Eu nem sei ainda se vou levantar, mesmo sabendo que eu deveria. Mas eis aqui o pouco que eu sei: no meu ritmo (ou no ritmo de quando eu já estiver com os prazos em cima da hora) eu vou levantar. E eu vou dar um jeitinho de caber no mundo. Pode parecer que caber não é uma tarefa difícil pra mim, tendo eu menos de 1 metro e 60 centímetros de altura. Mas é difícil, porque é como se todos os dias eu tivesse que acordar e passar uma pomada no corpo todo pra adormecer... Dói demais ver os olhares que julgam, as mãos que não se estendem, os braços que não abraçam (nem quando podiam) e as pessoas que não cuidam. E eu sei que eu não posso abarcar o mundo. E eu sei que tem muita gente tentando. Mas é preciso muito entorpecente pra se negar o fato: tem muita gente remando contra a maré, olhando só pro próprio umbigo, jogando sentimentos ruins pelos poros, pelos olhos e pela boca por todos os lados. E tanta gente com medo "do vírus". O pior vírus não é o que mata. É o que faz querer morrer. E eu vou levantar quando eu conseguir me adormecer o suficiente pra acreditar que continuar indo e fazer a minha parte vai fazer alguma diferença. Uma parte de mim sabe que vai e diz: deveria, levante! A outra tirou o dia pra estar triste e mergulhou-se em profunda tristeza por cada sorriso que morre, por cada uma das mãos que não se estendem. Eu realmente acho que é isso que o universo espera de nós. Que possamos ser melhores. Talvez não hoje, porque eu ainda estou deitada... mas quem sabe amanhã e, utopicamente, quem sabe juntos.
Quando é que deixa de ser fácil? Em qual momento da vida as pessoas passam a saber palavras demais que conseguem deixar q ualquer conversa muito complexa, muito difícil, extensa e longa... quando as pessoas aprendem a dizer: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconióticos , que é a maior palavra da língua portuguesa? Mas eu lembro que quando eu a aprendi, eu só sabia ela, então talvez o mo mento não seja esse. Mas também, quando eu aprendi me disseram que era a maior palavra do mundo, mais complexamente, o mundo é maior e as palavras das outras gramáticas também. Às vezes eu tenho a sensação de ser tudo um ciclo círculo sem fim! Quando é que as amizades se tornam desconfiadas? Em que momento da vida perdemos a capacidade de nos dar bem com qualquer criança e sempre chamar uma a mais pra brincar? Será que é um efeito da independência ou a independência é um efeito da complexidade? Às vezes penso que o momento onde tudo acontece é quando entramos em contato com o nosso vazio, aqu...
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