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O quadro.

A ponta vertiginosa do alto da montanha. O topo da nuvem no meio do céu. O voo do avião com paraquedistas que se jogam do topo. O arranha céu com suas cordas bambas. Adrenalina: uma busca pura e inebriante por um hormôniozinho que faz os seres humanos se sentirem super heróis, super humanos.
Agora, imagine só... No meio dessa viagem estonteante, de repente, não mais que de repente: BAM!
Com certeza o seu BAM foi diferente do meu, mas o desastre é o elemento comum.
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QUEBRA ABRUPTA SEM SENTIDO LÓGICO
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Agora, sentados no topo da montanha, embalemos nossos pés acima da água e vamos falar sobre o amor. O amor é aqui. O amor é o topo da montanha. Tão incerto quanto o passo que eu posso dar para frente, tão necessário quanto o passo que eu posso dar para trás, com uma fundação tão forte quanto as pedras milenares sobre as quais finco meus pés, com uma paisagem tão bela que pular e ficar aqui para sempre parece ser uma proposta tentadora. Tão calmo quanto a água que passa banhando as pedras lodosas, tão agitado quanto o vento que não permitem que meus cabelos e roupas mantenham-se no mesmo lugar por um único segundo, tão silencioso quanto a ausência de vozes, tão alto quanto o som das ondas na cachoeira doutro lado. Tão místico quanto o sol, que vem e vai - não sabe desde quando ou até quando. Tão certeiro quanto os raios de luz que alimentam as plantas. Tão presente e incessante quanto a minha própria respiração. Tão maleável quanto meu frágil corpo em meio a um cenário tão forte e violento... Tão calmo e acolhedor.
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QUEBRA ABRUPTA SEM SENTIDO LÓGICO nº2
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Relacionamentos... Paisagens pintadas por pincéis pacientes em telas brancas receosas. Tintas que se misturam por anos para dar o tom a uma pintura que não se sabe ao certo quando estará pronta, quando fechará seus ciclos, quantas serão nessa coleção de telas. Relacionamentos são coleções de telas. Namorados são pintores, que precisam trabalhar juntos, que batalham todos os dias para o que as vontades de um não atrapalhem a pintura do outro, que precisam concordar nas técnicas, formas, desenhos e tons pelos quais seu trabalho será conhecido, visto, admirado, baseado.
Pegue um pincel, meu amor. Me segure no espaço dos seus braços. Coloque, gentilmente, sua mão sobre a minha. Faça a tinta colorida dançar na tela branca, sem rumo... Depois: com toda a técnica, com objetivos. Não permita que eu fique nessa paranóia de perfeição. Deixe o pincel escorregar, deixe a tinta sujar minhas pernas e fazer uma mancha no carpete novo. Mas, por favor, o pegue novamente quando o pôr-do-sol começar: não podemos perder o momento de misturar nossas cores. Tire a minha roupa. Passe a tinta pelo meu pescoço e assista enquanto ela desce pelas minhas costas - façamos pausas. É a hora da dança. Deixe os pincéis lado a lado, pense bem sobre o que iremos desenhar amanhã. Eu já sei que será laranja, com um "quê" de vermelho, mas deixarei que você escolha a forma.
Não, não, não! Não se irrite porque erramos o passo. Vamos errar ainda tantas vezes. Você escolheu verde. Temos três cores sem forma. Vermelho nem sequer combina com verde. Respire fundo, meu menino. Pegue o pincel. Segure na minha mão. Está aqui um novo quadro e esse é um erro que não cometeremos de novo.
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QUEBRA ABRUPTA SEM SENTIDO LÓGICO nº3
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Onde estamos? Ah, sim. Pintando um quadro a dois na ponta vertiginosa da montanha quando... BAM! Exato.
Em resumo? É na crise que as coisas se constroem.
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QUEBRA ABRUPTA SEM SENTIDO LÓGICO nº4
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Não poderia terminar em ímpar um texto tão par. Tão dois, tão quatro. E, para o final, o mais importante: "Eu te amo, meu menino de olhos castanhos encantadores. Amo sua pele branca que reflete todas as cores. Amo sua barba macia que faz minha pele arrepiar. Amo suas músicas barulhentas que me impedem, muitas vezes, de pensar. Amo seus dedos dançantes que sabem de tudo, um pouco, tocar. Amo você por inteiro, mesmo estranho, mesmo agoniado, mesmo ligeiro. Meu menino, que saudades, de passar uma semana inteira imaginando quadros de amor verdadeiro".

Ao meu M favorito.

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