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Resiliência e "levicidade"

Não aja como se as pessoas devessem saber; não sinta como se você tivesse o dever de contar.

"São grandes coisas"
"São pequenas coisas

E quando são só coisas? Que por serem EM SI, não precisam sequer de tamanho. Apenas são. Nem estão e - muito menos, vão. São porque sim, muitas vezes.

Na vida podemos querer ser vinte coisas. Na vida podemos ser 15 coisas. Na vida seremos 10 coisas. Há quem olhe de fora e diga que essas dez coisas são tudo que precisamos, são incríveis, são maravilhosas. Há dias que precisamos lembrar das 5 coisas que não fomos e das 5 que nunca poderíamos ser. Não cabe a ninguém dizer o que nos é suficiente. Não cabe a ninguém saber o nome das nossas dez feridas - por isso, não aja como se soubessem, ou como se tivessem o dever de saber. 

Lembre-se de que são suas todas as coisas; e deixe que as outras pessoas sejam. Tire delas o dever de respeitar suas feridas. Tire delas o peso de sabê-las. Tire delas o incômodo de podar-se por você. Não permita que seu baú de frustrações se abra à mais ninguém. Guarde a chave! Abra somente quando estiver sozinho e acostume-se com todas elas.

 "Nunca serei...", "Não conseguirei...". 

Tire da cabeça esse papo que podemos ser o que quisermos, pois a verdade não é nada disso. Talvez você possa ser músico; e talvez você nunca consiga ser tão bom quanto Mozart. Aceite isso. Abra seu sonho de ser como Mozart e saiba quando aceitar que não será. Deixe de desculpas, deixe de se cobrar mais treino, deixe de se esconder à noite pensando sobre isso. As vezes, não dá. Não cabe ao seu corpo, não faz parte da sua constituição, não veio com você. 

Talvez os reis fossem reis porque Deus sabia que não conseguiriam construir nada se fossem artesãos. Quem sabe seja assim. Quem sabe cada um tenha seu papel: sua cota de erros e acertos. 

Resiliência.
Paciência.
Inteligência.
Para reconhecer.

Mas, mesmo reconhecendo, parece que uma chama de esperança continua acesa no âmago do seu estômago pensando que - talvez, quem sabe, um dia, você encontre uma única pessoa para a qual você consiga ser as vinte coisas. Uma pessoa que não seja como o mundo, que não seja tão cruel, que veja aquilo que você sempre quis mostrar. E você - ao invés de depositar no mundo, deposita nessa pessoa a vontade de que ela - de alguma maneira - te torne as vinte coisas que você sempre quis ser. Pelo menos para ela, porque somente aquela admiração lhe seria suficiente.

Talvez a única pessoa que faça isso sejam os filhos - por algum fator genético e universal de preenchimento. Talvez por isso eles vejam os pais como super e superiores. Para que essas frustrações não se prolonguem por toda a eternidade e além. 

Porque as outras pessoas - aquelas que não saíram de dentro de alguma parte de você... São tão cruéis quanto o mundo. Mesmo sem querer. E acaba doendo mais - por ser o seu último brilho da chama da esperança. As pessoas quando te dizem não, são pedradas. A pessoa quando te diz não, é facada - de perto, com sangue, certeiro, sem esperanças de retorno. A resiliência precisa ser mais forte e você precisa en(amar)durecer. 

E aceitar fica mais difícil. Mas é o mesmo princípio. Just do it.

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