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O que eu diria?

Na sexta série eu comecei a ter aula de filosofia e o professor, um belo dia, estava dando aula sobre preconceito. Nessa época, eu já era meio desesperada por palavras, tanto que enquanto ele falava eu estava escrevendo um texto de um lado e segurando um livro de histórias do outro. O ponto é: preconceito. Esse meu professor disse é um PRÉ conceito, um conceito que você cria antes. E pronto. Eu fiquei durante vários dias e vários textos enlouquecendo sobre essa ideia.

Um conceito anterior ao...?

E por mais que eu pensasse, era isso mesmo, eram conceitos que vinham ANTES, antes de tudo, antes do meu pensamento, antes de mim, antes da minha experiência, simplesmente vinham antes. Fosse de quem fosse, da sociedade, dos meus pais, da minha família ou dos meus amigos: estavam lá esses tais conceitos anteriores. E o que era pior: eu tinha PRÉ conceitos. Como era possível um ser tão pensante, que se considerava tão crítico perceber que tinha pré conceitos que vinham de algum lugar que eu nem sabia quais eram? Facilmente eu detectei uns cinco e com o passar dos anos fui percebendo vários outros e fui me formando, me moldando, amadurecendo e me destituindo de tais premissas. Mas você ficaria surpreso com o número de preconceitos que temos guardados sem nem saber que são nossos.
E foram passando os anos, a sexta série mudou até de nome, as memórias ficaram borradas e anos depois, muitos anos depois... Eu estava namorando. O primeiro namoro de mais de anos, que eu realmente pude considerar um namoro dentro dos meus padrões de "o que deveria ser um namoro" (acho que eu era a única pessoa que não via o número de pré conceitos envolvidos na inerência da minha existência). E o que eu descubro quando esse namoro acaba? Isso mesmo, PRÉ conceitos.
Descobri que durante muito tempo eu sofri pelas formulações de tudo que eu achava que eu queria. Veja esse exemplo, eu realmente achava que eu queria um rapaz médico, e eu não pensava nas noites dormindo só por causa de plantões noturnos, não pensava nas taxas de alcoolismo e traições associadas com a profissão devido ao alto nível de estresse, não pensava na instabilidade amorosa; eu não sei no que eu pensava, se você me perguntar, honestamente, eu não faço ideia de como isso me parecia vantagem. Mas parecia, uma parte de mim modulada por preconceitos acreditava que valia a pena abandonar uma porrada de coisas pra ter esse tal status médico. E que fique bem claro, esse é um único aspecto dos milhares de preconceitos que eu recentemente descobri em mim - falando em termos de relacionamento amoroso, obviamente.

Mas eu vim aqui falar de como é bom desconstruir certas premissas
Nos conhecer melhor
Aprender a amar mais a si mesmo
E de quantas coisas boas essa jornada pode nos trazer 

E hoje, sabe o que eu diria? Eu diria que eu sou muito feliz por ter encontrado você. Eu sou imensamente mais feliz pela sua presença na minha vida, por cada conversa e frase que já me foram dadas por ti. "Antes eu sentiria medo, com todas as minhas certezas, não mais". - Tenho para mim, que você é um pequeno gênio das frases que me fazem crescer exponencialmente.
Você, que como o meu professor da sexta série, fez de mim um ser humano melhor, por me dar as ferramentas para me tornar "mais eu", mais minha. Você que é completamente imprevisível, mas que é uma das únicas coisas com a qual eu sinto que eu posso contar sempre. Você que me fez jogar no lixo tudo que eu pensava que eu precisava pra substituir por tudo aquilo que realmente me faria feliz. Você que é sincero, que me mostrou que falar a verdade sempre é mais bonito do que ser educada. Que é leal,  fiel, timão, tamo junto, porque ser fiel é mais do que não trair, é ir além desse básico e não contar os segredos, não desconfiar, não cercear a liberdade, não acusar, não ter medo de perguntar, não ter medo de pedir ajuda, não mentir, não enganar, não esconder. Você que é companheiro, que sabe que ser prioridade é escolher livremente estar junto da forma mais intensa possível, "quando dá, dá", e quando não der: compreensão, saudades, amor. Você que me mostra que é possível aprender a melhorar nossa convivência com pequenos gestos, cuidando pra deixar a toalha ali ou acolá, ajudar na louça, arrumar o quarto, fazer um jantar... de formas tão simples. Amar é poder conversar sobre qualquer coisa. Amar é poder se questionar sobre qualquer coisa. Amar é ser você, amar você, cuidar de você e pegar esse você, prontinho, e doar ao outro com todo o seu carinho.
Você é gentil, carinhoso e educado. Você é impaciente, agoniado. Você é sensível, bom escritor, colecionador e esfomeado. Você é teimoso e irritado. Você é quieto, doado, atarefado, trabalhador, curioso e dedicado. Você é todos em um, mas você é só você. E eu amo você.
Esse você que me ensina todos os dias sobre tolerância, sobre respeito, sobre tentar ter a paciência que não temos, sobre escutar com mais amor, sobre possibilidades, sobre estar junto, sobre adequar rotinas... Sobre como é incrível esse nosso encontro. Sobre amar acima de todas as coisas, sobre dar espaço, sobre dar aconchego. Sobre um coisa nunca significar a falta da outra, porque amor é equilíbrio.
Eu olho pra nós dois, pro que nós construímos e eu sinto paz. Sinto continuidade e completude, sinto caminhada, sorrisos e paixão. Em nenhum momento sinto medo, nem sinto dúvidas. Eu sei que é com você por tempo indeterminado, ainda temos muito o que fazer juntos. viajar juntos e construir juntos.

É isso que eu diria. E diria obrigada.
E digo.

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