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Esse ano (e os próximos).

Quanto mais o tempo passa, maior se torna a sua relatividade. Quando faltavam dois anos para chegar no 3º ano, o tal ano do vestibular, eu nem sequer havia me dado conta desse fato tal qual está descrito aqui. Eu sabia-o, mas não havia importância. Costumava ser simples assim. Viver intensamente o dia de hoje e deixar que o futuro viesse, lidar com os problemas só depois deles baterem com o pé na soleira da porta.
Hoje eu me vejo contando, em meio à minha hiperventilação, que falta um ano e oito meses para eu decidir "o que fazer com a minha vida" - em termos profissionais, porque em termos gerais, já é pra eu estar decidindo agora - melhor dizendo, eu já deveria saber. Creio eu.
Na verdade, eu não era uma pessoa que contava muito o tempo. Eu não usava relógio, eu não olhava o telefone, eu não pensava no que eu ia fazer com a minha vida daqui a um ano e oito meses. E - talvez, essa jornada de autoconhecimento intensiva tenha tornado lidar com todas essas decisões muito mais fácil, mas não alivia a saudade daquilo-que-nem-sei-nomear. 
Eu sempre me cobrei exageradamente me tornar "essa pessoa" que eu pretend(ia)o ser: seja correta, não jogue lixo no chão, nunca minta, nunca traia, nunca engane, nunca tire vantagem, nunca grite, nunca desrespeite, nunca(s)... É óbvio que eu não consegui sempre e ainda não consigo. É óbvio que eu luto todos os dias para entrar cada vez mais em contato com o lado divino que há em mim e me afastar do meu lado "animalzinho", mas eu sou humana o suficiente para saber que ele está lá e que ele pode ganhar mais forças se eu não tomar cuidado. Tenha potencial para se tornar, mas não seja. Tente não ser.
A vida passa muito rápido, não somos donos de nada, nem de ninguém. Eu vi escorrer pelos meus dedos pessoas que eu achei que nunca iriam embora, vi ficarem 'para sempre' pessoas que eu achei que logo iriam embora e vi escaparem por entre lágrimas amores-que-mudaram-de-nome. Me estranha a capacidade que existe em mim de olhar uma foto de um amor-passado e não sentir nada; me agustia assumir que seja indiferença aquilo que sinto; e me assusta pensar que seja algo ainda pior; e me acalma saber que não é raiva ou algo mal resolvido. Mas sim, eu tenho em mim a capacidade de "desamar" ao ponto de assustar-me com isso. Frieza? Provavelmente. E de verdade. Não daquelas friezas que a pessoa finge e chora em casa, daquelas que são tão completamente vazias, que nem sequer são... Deixaram de ser, simples assim.
Como eu também não pensei que eu fosse capaz de falar em público, de aprender a lidar com a minha montanha russa de sentimentos, de olhar para adolescentes e ver que eu não me relaciono mais com aquela 'fase', de voltar a escrever, de voltar a ler... É, eu fiquei por algum tempo muito perdida dentro de mim. Depois fiquei mais tempo ainda perdida fora de mim - e foi pior. Agora me encontro me encontrando; estou em movimento, sou um 'quando'.
E como a minha vida, esse texto foi se construindo. Começou de uma agonia visceral da 'crise dos 20', de 'não sei se farei mestrado, não sei o que fazer', de 'meu Deus, só falta 1 ano e 8 meses'... Para: se eu conseguir chegar até aqui, essa é a maior prova de que tudo vai ficar bem. Por mais clichê que essa frase possa parecer. E agora esse texto vai virar agradecimentos.
Aos meus pais,
Por não me pressionarem a passar por nenhuma dessas fases, deixando que eu construísse claramente a imagem da pessoa que eu queria me tornar, me espelhando nele e em todos que eu já admirei. Por me amarem e me ensinarem a amar. Por me ensinarem cuidado, constância e consciência nas relações. Pela vida.

Ao Pedro,
Por me mostrar que eu sou capaz de 'desamar' de verdade e de vencer qualquer mudança ou época de grandes dificuldades. Você fez eu me perder completamente dentro e fora de mim, mas graças à você, eu aprendi a me encontrar... E prometi a mim mesma que jamais iria me perder daquela maneira de novo. Gratidão imensa; pois você me mostrou a minha força.

Ao Lucas,
Por me mostrar que mesmo aqueles que vão embora, se for de verdade, de certa forma, eles sempre encontram uma maneira de ficar. E é sempre a maneira certa.

Ao Régis,
Por me ensinar que alguns ficam para sempre.

Ao grande amor da minha vida, Marcos, meu M favorito, VOCÊ,
Por me mostrar cada palavra desse texto. Sem você a minha visão era tão embaçada que eu não conseguiria enxergar ao meu redor. Você segurou minha mão e me trouxe de volta. Você me dá forças para me refazer todos os dias e ser uma pessoa melhor para você e com você. Você permitiu que eu visse a minha força, que eu desse os próximos passos, que eu aprendesse a amar de verdade - quando esse amor vem com tudo junto. Você construiu certezas onde eu tinha dúvidas, imensidão onde eu tinha pequeninismos, sorrisos onde eu tinha mágoas. Você não deixa espaços não preenchidos. Você é completude.
E você talvez não tenha sido o começo, mas será sempre minha 'fechada com chave de ouro'. Eu te amo imensamente.

E acho que foi isso nesse domingo de 22 de março.

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