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Num café qualquer.


Não quero te lembrar em coisas ou em letras de músicas, não quero presentes, nem momentos, nem lembranças, nem mágica, nem tango espanhol... Tantas coisas não quero. Mas tem uma coisa que quero. Quero esbarrar com você num café e tomar o chá com bolachas mais desconfortável da minha vida. Quero te encontrar numa rua por acaso, acidente, descaso ou falta de sorte. Quero sorrir quando te ver e não te abraçar. Quero dizer que senti sua falta todos os dias, quando só senti em três e nem sequer sentir culpa de te ter como lembrança borrada de passado bomruim! E quero responder que foi "interessante" ou "érh... normal" quando perguntarem como foi. Mas ninguém saberia como foi incômodo e detestável em cada minuto. Porque ninguém entenderia porque ficamos ali se nem ao menos gostávamos de bolachas ou de cafeterias. E a música estava alta e errada, a mesa torta, a cadeira velha, o cheiro úmido e o tempo em falta... Cada minuto que ficamos em silêncio e dissemos frases soltas e desnecessárias que não fariam a menor diferença se não fossem ditas. Frases estúpidas. Subjetivas. Vagas. Porque era disso que éramos feitos, foi a isso que fomos reduzidos e diminuídos. Quase já não éramos mais no plano real. Mas éramos e sempre seríamos em algum outro plano e talvez fosse por isso que estávamos ali. E apenas por alguns minutos rimos sobre algum comentário ridículo lançado por algum dos dois. E aquele riso nos lembrou porque estávamos ali. Mas ele não era importante ou sequer suficiente. E quando fôssemos embora prometeríamos que se nos víssemos na rua em menos de um ano, fingiríamos que não nos conhecíamos porque passar por dois encontros terríveis em menos de um ano não era admissível. E sentamos em meio ao cheiro do café moído, pensando em todas as frases e relatos complexos que poderíamos dizer e não iríamos, mas saber que se eles fossem ditos, seriam completamente entendidos, tinha algo haver com porquê estávamos ali. E em mais um ano, talvez na mesma data, nos encontraríamos de novo porque sentiríamos falta daquele algo, sem nome e cor, que estava ali. Num outro encontro completamente sem significado ou com um significado qualquer. Num café qualquer. E num único esbarrão.

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